Já eram mais de 9h45 da manhã, mais de 100 moradores, representantes de associações e outros ativistas estavam reunidos em um posto desativado do bairro de Piquiá em Açailândia - MA.


Aquele seria provavelmente o caminho que o governador Flávio Dino (PCdoB) e sua comitiva deveriam utilizar após a aterrissagem que aconteceu no aeroporto privado da Companhia Siderúrgica Vale do Pindaré. Pessoas mais próximas ao governo haviam comunicado "o governador chegou, vai passar aí e descer para conversar com o povo". A expectativa aumentou, o governador ia dedicar um tempinho de sua agenda lotada para conversar com o povo, tal como nos tempos de campanha.

A visita foi anunciada no site do governo do Maranhão primeiramente como parte do calendário de inaugurações em investimentos em infraestrutura e educação e depois, de cortesia, faria uma visita à Convenção 2018 da COMADESMA (Congresso das Assembleias de Deus do Maranhão). A página foi retirada da internet.

O QUE REIVINDICAVAM?
Redigiram uma carta, apresentando suas indignações, lembrando ao executivo municipal e estadual suas promessas não cumpridas. 
1) Asfaltamento da avenida, que havia sido promessa do governador e prefeito como parte do programa "Mais asfalto" na ocasião da inauguração do corpo de bombeiros da cidade (março de 2017);
2) Melhoria das rotas e frequência do transporte público;
3) Limpeza constante de resíduos de ferro ao longo da BR-222 em virtude do tráfego constante de veículos pesados das guseiras;
4) Títulos definitivos de propriedade dos terrenos no Piquiá;
5) Existência de um correspondente bancário e segurança policial no bairro;
6) Fiscalização das operações das empresas do Piquiá para que cumpram normas ambientais (competência do estado);
7) Reivindicações especiais para educação: repasse aos servidores, autonomia de trabalho para as Unidades Regionais de Ensino, atenção especial à Educação do Campo e ao transporte escolar para zonas rurais;
8) Por último, aquele motivo que citamos ontem aqui no blog, o atraso no repasse - e a omissão do estado - do financiamento da Caixa para a construção das moradias do projeto habitacional que deve beneficiar mais de 200 famílias do bairro que está a mais de 30 anos sofrendo com impactos ao meio ambiente e a saúde humana e que foi tema de discussão para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos em Washington (EUA) em 2015.

VEJA AS FOTOS


UMA OUTRA HISTÓRIA
Era 9 de setembro de 2010, 7 anos atrás, próximo a minha casa fez-se uma concentração, um amontoado de gente com camisas vermelhas e bandeiras vermelhas e cartazes vermelhos que tinham a foto de um homem de pele morena, cabelo moreno e um sorriso simpático demais. Ao lado da foto, dois algarismos, um número; duas palavras, um nome. 65. Flávio Dino. 
Dizia-se que o candidato ao governo, que perdeu a eleição daquele ano, iria passar ali na mesma BR e que dali em frente seguiria, não mais de carro, mas com o pé no chão, do lado povo. 
A Toyota Hilux preta saiu da rodovia e entrou na Avenida João Castelo, principal avenida do bairro, o relógio batia quase 7 da noite. O homem desceu, sozinho, e foi "engolido" pela multidão. Ao longe eu vi o homem abrir a porta do carro, descer dele e entre abraços e promessas sumir no meio do povo, suado, feliz.

HOJE, A HISTÓRIA É OUTRA...
Não pensei que veria de novo. Eu vi.
O homem passou mesmo, como haviam prometido, veio mesmo por aquele caminho. Era uma Toyota Hilux prata, seguida de outros três pick-ups quase idênticas. Seguida de alguns veículos da Força Tática da PM. O governador só não parou  para falar com o povo, como havíamos esperado. Também não leu nenhum dos cartazes na faixa da estrada, nos quais o povo pedia socorro. Os carros passaram velozes na contramão escoltados por aqueles que, com certeza, são os melhores homens do 26º Batalhão (BPM).

CONFIRA AQUI (JnT)


                          

O povo quis parar, quis enfrentar, a polícia desceu, mandou afastar, o governador seguiu seu rumo.
Os manifestantes ocuparam a BR por mais de 2 horas esperando alguma outra resposta até que o secretário de infraestrutura do governo, Clayton Noleto, foi mandado para conversar, para fazer outras promessas. Agora, depois do diálogo o povo voltou pra casa e espera a segunda-feira chegar, quando outras promessas começarão a ser cumpridas para que um dia, como que por mágica, os pais acordem, abram a porta e vejam que os problemas diminuíram. Não escrevo um artigo político-jornalístico de oposição, é o relato de uma observação silenciosa de quase uma década.
Secretário em negociação com os manifestantes

UM OUTRO HOMEM
O homem que passou hoje não era o mesmo que eu vi em 2010. Aquele era o deputado federal, candidato ao governo, que com o jingle de campanha bonitinho dizia que seu "coração não tem medo" e que havia chegado a hora da mudança em que ele renovaria o Maranhão.
Bem, o homem de hoje era o governador, que inclusive deve concorrer à reeleição contra aquela que derrotou ele nas urnas em 2010, Roseana Sarney. A memória guarda cada detalhe. Este é o governador que prometeu renovar o Maranhão e se utiliza das mesmas práticas dos governos anteriores, dos Sarneys. Os dois, em duas ocasiões, dois homens diferentes. O primeiro era vela acessa, viva, fogo flamejante de esperança. O segundo é só cera derretida, consumada pelo poder.
Charge: niguém


Mais tarde, 8 anos terão se passado, será setembro de novo e o governador estará nas ruas pedindo voto contra Roseana Sarney novamente. E aí governador, vai trazer escolta na sua campanha?


Por Marcos Antonio